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Não é possível distinguir no olhômetro quem é travesti e quem é mulher trans. Sendo assim, é necessário ter cautela ao tentar estabelecer características que separariam uma identidade da outra.

A busca pela identidade de ser Travesti

Não é possível distinguir no olhômetro quem é travesti e quem é mulher trans. Sendo assim, é necessário ter cautela ao tentar estabelecer características que separariam uma identidade da outra.

A psiquiatria vem desde remotos tempos pensando essa diferença em termos de “relação que a pessoa estabelece com o próprio genital”, mulher trans sendo aquela que tem aversão ao pênis, travesti aquela que lidaria com ele numa boa. Mas essa hipótese (e não podemos nunca esquecer que se tratam sempre de hipóteses, ridículas nesse caso) tem consequências bastante perversas para a população trans.

A primeira consequência é centrar o debate sobre transgeneridade no genital em si ao invés de na criação que recebemos por conta dele. Ou seja, dar a entender que o X da questão está no corpo, ter ou não ter pênis/vagina e não na impossibilidade de vivermos de acordo com o gênero com que nos identificamos. Ninguém nasce querendo fazer cirurgia, tratamento hormonal, depilação a laser e, se boa parte de nós recorre a essas intervenções, é por termos sido condicionadas a acreditar, desde muito cedo, que era necessário transformar nossos corpos para podermos viver nosso gênero, para podermos nos reconhecer e ser reconhecidas nesse nosso gênero.

Outra consequência nefasta da distinção é hierarquizar identidades, a mulher trans então se tornando a “transexual de verdade” (já que odeia o próprio genital, já que quer possuir o genital que as mulheres “legítimas” possuem) e a travesti surgindo como apenas uma figura “fetichista, depravada” (já que supostamente não tem problemas com seu pênis). Conseguem ver relação disso com o fato da sociedade aceitar muito mais facilmente a expressão “mulher trans” do que “travesti”? Não à toa a palavra travesti, em diversos espaços, ainda é entendida como perversão sexual, xingamento, e a maioria das pessoas ainda acredita que ela deve ser usada no masculino, “o” travesti.

Querer pensar a diferença entre as duas identidades em termos de genital é então, já se vai percebendo, um sintoma da velha concepção transfóbica que acredita que “homem” e “mulher” são decorrências do genital com que a pessoa nasceu ou, agora, do que ela tem/gostaria de ter.

E por que isso seria transfóbico? Oras, por não termos acesso ao genital que as pessoas têm, ao genital com que nasceram, por não os vermos nas nossas interações cotidianas, por não estarem estampados na nossa cara.

De acordo com essa concepção, tratar alguém como mulher seria o mesmo que dizer “eu sei que você tem vagina”, quando essa suposição é tão absurda quanto invasiva: o único fato que levaria alguém a tratar o Thammy Miranda no feminino é a pessoa acreditar que sabe o genital com que ele nasceu e acreditar que genital define gênero (e só é possível sabê-lo, no caso do Thammy, se conhecermos sua história). Essa constatação, junto à proposição visionária de Simone de Beauvoir (“não se nasce mulher, torna-se mulher”), deveria bastar para abandonarmos de vez qualquer tentativa de genitalizar as identidades, inclusive as cis.

Agora, se já conseguimos entender o quão invasivo é querer tratar alguém no feminino por acreditar saber que a pessoas nasceu com vagina, imagina quão mais invasivo não é, para eu decidir como vou tratar alguém, eu precisar saber da relação que ela tem com seu genital.

Imagina se, ao dizer “sou travesti”, eu estivesse dizendo “lido bem com meu genital” e, ao dizer “mulher trans”, “tenho aversão ao pênis com que nasci”… absurdo?

Absurdo inclusive por ir contra uma das ideias-chave do transfeminismo, a de que existem homens de vagina e mulheres de pênis, ideia importantíssima por nos permitir, cada vez mais, pensar modelos de masculinidade e feminilidade, homem e mulher, pautados pelos nossos corpos, corpos trans, e não por corpos que não temos, corpos que definem a norma que nos assujeita. Não por acaso vão surgindo mais e mais pessoas que se reivindicam mulher trans mesmo sem revelarem aversão para com seus genitais e vamos nos dando conta de que é balela essa história de que pessoas que se reivindicam travesti lidam de boas com o genital que têm.

Travesti e mulher trans são palavras sinônimas, o que não quer dizer que signifiquem o mesmo.

Cada uma tem sua história e, ao ser acionada, ativa uma série muito particular de sentidos: transexual é palavra criada pelo saber médico, que responsabiliza o corpo e desculpa o indivíduo (“corpo errado”, “mente feminina”, “sofrimento”, etc), tornando mais fácil sua aceitação pela sociedade, ao passo que travesti ainda está muito associada ao universo da prostituição precária, da marginalização, da exclusão social, tudo isso pura e simplesmente por “escolha”, “pouca vergonha” ou “falta do que fazer” (como se sua causa não tivesse a justificativa nobre inventada pela medicina para a transexual).

Ao invés de propor ou buscar distinções, talvez fosse o momento de analisarmos esses sentidos que a sociedade projeta sobre as duas palavras, tentando identificar as razões dessas projeções e romper com essas narrativas que nos engessam, violentam. De qualquer forma, antes de querer diferenciá-las, antes de querer propor distinções normativas entre elas, é preciso se perguntar sobre o propósito dessa tentativa de diferenciação e se você está ciente das consequências que daí podem advir.

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A informação adequada tem o poder de quebrar falsos paradigmas e modelos sociais que não fazem mais sentido nos dias em que vivemos. Viva as mulheres trans e todas as formas de amar!!