Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Saiba mais sobre a nossa política de privacidade e o uso de cookies ACEITAR

Namorar uma mulher trans não é muito diferente de namorar uma mulher cis. Senti-me amado por uma mulher como em qualquer outra relação que já tive.

Como é namorar uma mulher trans

Antes de começar a falar da minha experiência namorando uma mulher trans, acho que vale fazer um resumo de quem eu sou para dar uma ideia de onde vem meu ponto de vista. Eu sou ucraniano-brasileiro, estudo Engenharia da Computação e sempre fui um homem considerado hétero (sou cis).

Eu conheci minha noiva por volta de 2016. Ela foi ofendida online e um grupo de pessoas mal-intencionadas estava planejando denunciar o perfil dela em um grupo de Facebook, simplesmente por ela emitir sua opinião sobre um filme. Eu, sabendo que iriam a denunciar em massa, resolvi alertá-la, imaginando que talvez ela pudesse usar o Facebook como uma ferramenta de trabalho e que o site fosse importante para ela.

Após entrar em contato com ela e trocarmos algumas mensagens, aproveitei para perguntar sobre transexualidade. Contei a ela que havia dado match em uma pessoa no tinder que era trans e que estava saindo com ela, porém não gostaria de perguntar minhas dúvidas diretamente para a pessoa por não saber o que poderia ser ofensivo ou não, já que eu não tinha qualquer contato com pessoas ou mulheres trans, mesmo tendo um melhor amigo gay.

Com o passar do tempo, acabamos nos tornando amigos e após meu relacionamento com a outra menina não dar certo, eu e Naomi começamos a flertar. Eu e ela já tínhamos virado amigos, aconteceu bem rápido: comprei a passagem para visitá-la sem qualquer promessa que sequer ficaríamos. Em novembro conheci ela online, em 25 de janeiro eu estava chegando em Santos-SP para vê-la (sou do Rio Grande do Sul).

A verdade é que sair com ela não foi nada muito diferente do que seria com uma menina cis. No primeiro encontro a gente se beijou e depois fomos ao cinema fazer um roteiro de casal. Quando a deixei em casa, havia combinado dela não decidir nada até ter certeza, inclusive, foi ela quem me beijou primeiro durante o encontro. Ao chegar em casa, ela mesma optou por apenas pegar umas roupas e ir para o hotel onde eu estava hospedado. Lá, a pedi em namoro e tive meu primeiro contato sexual com uma menina trans.

O relacionamento foi simples e fácil. Eu estava namorando uma menina como qualquer outra; ela tinha algumas inseguranças, era um pouco afobada e muito alegre. Com a exceção do sexo, que também não é tão diferente assim, eu quase nunca sequer lembro que namoro uma mulher trans.

Uma das únicas experiências ruins foi quando amigos meus se preocuparam demais e acabaram sendo indelicados, alguns tiveram medo que talvez a família deles não fosse tratar ela bem. Porém, após a histeria inicial, tudo ocorreu muito bem, até mesmo os amigos que pareciam que mais iriam ser contra acabaram se mostrando bem prestativos e felizes.

Outro caso, foi quando alguns conhecidos acabaram se afastando, alguns desses, quando questionados, até falaram “eu te respeito, mas não concordo com isso”.

Eu vejo, entretanto, isso com muita positividade, até mesmo aqueles qual eu pré-julguei se mostraram grande apoiadores e aqueles que às vezes levantavam bandeira para defender mil coisas em redes sociais lentamente mostraram a cara e se afastaram.

O que pude concluir é que namorar uma mulher trans é bem simples e muito gratificante. Senti-me amado por uma mulher como em qualquer outra relação que já tive.

No entanto, acho que vale ressaltar as coisas boas as quais pude viver por conta de namorar uma pessoa trans; ela estava com menos de um ano de transição e já estávamos há um ano e seis meses juntos, e eu tive a oportunidade de ver ela crescendo.

Minha noiva aprendeu a usar batom, errou diversas vezes, sentiu-se insegura, mas brincamos e a ajudei como pude para incentivar ela a continuar tentando. O resultado é incrível, não há nada que seja tão gratificante quanto ver sua companheira aproveitando da vaidade que sempre quis ter, ficando feliz com coisas simples como batom e brincos, descobrindo sua feminilidade por muito tempo suprimida. Dá até vontade de aprender a se maquiar só para poder brincar e ajudar ela. Essa parte de descobrimento é absolutamente deliciosa e impagável.

Eu aprendi muito com ela, aprendi coisas que nem sabia que existiam. Hoje, mais do que nunca, tenho certeza da minha sexualidade e todos assuntos a volta disso, também aprendi muito sobre o ser humano. Talvez para olhares mais preconceituosos, uma menina cis jogando “cardgame” (jogos de cartas como Yu-Gi-Oh, Pokémon ou Magic) não signifique nada de mais, enquanto para esses mesmos olhos, uma menina trans pode parecer que “na verdade é um homem”, pois está fazendo “coisa de homem”, mas o convívio e aprendizado mostra como essas pessoas são realmente mulheres e fortes, que se permitem ter seu lado moleca sem medo de ser feliz e ignorando os preconceitos atrelados ao gênero.

Por fim, acho que o maior aprendizado para mim foi sobre orgulho e expectativa. Esse processo todo de descobrimento com ela fez com que eu desse valor as pequenas coisas e enxergasse o real valor de fazer as coisas com paixão. Dá um orgulho imenso ver a pessoa que você ama se descobrindo e superando as próprias expectativas, ou então, ver ela se tornando cada vez mais segura e forte para lutar contra o mundo que foi injusto e preconceituoso por tanto tempo.

Esse aprendizado é enorme, uma superação incrível conquistado a cada batom manchado, um aprendizado que vai além e serve para tudo na vida. Tenho certeza que mesmo não sendo trans, ou mesmo que nunca mais tenha um contato com pessoas trans, aprendi muito e melhorei demais como ser humano. O orgulho trans é isso afinal, não é?

Gostou deste texto? Curta, compartilhe e encaminhe para seus amigos e quem você achar que precisa de mais informações sobre o universo das mulheres trans.

A informação adequada tem o poder de quebrar falsos paradigmas e modelos sociais que não fazem mais sentido nos dias em que vivemos. Viva as mulheres trans e todas as formas de amar!!

Domingo, 26 de Julho de 2020 Domingo, 26 de Julho de 2020 às 22:06