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Embora a palavra casa seja sinônimo de segurança para muitas pessoas, parte da população trans enfrenta violência e humilhação justamente onde deveria encontrar acolhimento.

Mulheres Trans e a importância do apoio familiar

Embora a palavra casa seja sinônimo de segurança e conforto para muitas pessoas, grande parte da população trans enfrenta violência e humilhação justamente onde deveria encontrar acolhimento. Muitas das histórias narradas por travestis e transexuais brasileiros se iniciam de forma parecida: com a incompreensão e a rejeição familiar, que os lançam em um trajeto de exclusão e incerteza.

A vida de Miguel Marques, um estudante de psicologia de 24 anos, começou assim. Nascido em São Paulo, o jovem morou apenas com a mãe a partir dos 4 anos, depois que os pais se separaram. Ainda pequeno, ele se percebia diferente, embora não soubesse nomear aquele sentimento. “Na verdade, não tem nome, né? Sou homem e sempre fui homem, como qualquer outro, mas não nasci em um corpo correspondente”, analisa hoje.

A mãe, religiosa e extremamente conservadora, conta Miguel, o agredia física e psicologicamente desde pequeno. Em um período mais conturbado, diz, ela chegou a ameaçá-lo de morte, descrevendo como o jogaria do alto da escada de casa. “Ela sempre me perguntou se eu era homossexual, e eu sempre neguei, porque de fato nunca fui. A minha questão era de identidade”, diz o rapaz, que hoje mora em Salvador.

Miguel resistiu a esse ambiente até terminar o ensino médio, pois tinha consciência de que os problemas que enfrentaria seriam muito maiores sem escolaridade. Ao atingir a maioridade, saiu de casa contando com a pensão que o pai pagava. Este foi informado que o filho havia começado a transição física pelo telefone. “Ele disse que já sabia e que estava apenas aguardando que eu contasse. Já minha mãe disse coisas péssimas, o que eu já esperava”, lembra (leia depoimento no quadro abaixo).

No país, há poucos dados sobre a realidade específica das pessoas transgêneras. Geralmente, os levantamentos reúnem toda a população LGBT, que inclui também lésbicas, gays e bissexuais. Esses balanços, contudo, ajudam a enxergar a virulência com que a falta de compreensão familiar pode se manifestar.

Pelo Disque 100, canal para denúncias de violações contra essa parcela da sociedade, mantido pela Secretaria de Direitos Humanos (SDH), foram registradas 1.792 agressões contra LGBTs em 2014. Um em cada seis desses crimes foi cometido por parentes das vítimas — 79 pelos pais; 74 por irmãos; 70 por companheiros, tios ou cunhados; e 57 por outros familiares. Miguel não estranha esses números: “A única vez que algum familiar me procurou foi para me insultar”.

No consultório

Especializada em psicoterapia familiar com pessoas trans, a psicóloga Ingrid Quintão, da instituição Vêr-te-se, revela que já presenciou muitos casos parecidos com o de Miguel. Segundo ela, a desinformação da sociedade gera preconceito e violência, e isso acaba reproduzido dentro dos lares. Diariamente, a profissional recebe pessoas que sofrem por não serem aceitas pela família.

Quando a família reconhece que precisa de ajuda e procura um terapeuta, abre-se espaço para uma comunicação que, em grande parte das vezes, é impossível dentro de casa. Ingrid explica que parte do trabalho é ajudar as pessoas a desconstruírem a ideia de que todos devem se encaixar em uma “norma” de gênero preestabelecida. “A gente ajuda a pessoa trans a comunicar, para a família, como ela se enxerga no mundo de uma forma positiva.”

Pela experiência da assistente Ana Carolina Silvério, do Centro de Referência Especializado da Diversidade (Creas Diversidade), os casos mais difíceis de entendimento entre trans e familiares são nas casas onde as pessoas seguem religiões que não aceitam a transexualidade. “Muitos tratam essas pessoas como adoecidas, ou até mesmo ‘endemoniadas’. Isso acaba desumanizando as relações”, explica.

Ingrid também lida frequentemente com essa questão no consultório. Segundo ela, algumas crenças contribuem para a continuidade do preconceito por não discutirem diferentes “formas de se identificar no mundo”.

“Eu diria para as famílias das pessoas transgêneras que a base do desenvolvimento psíquico-emocional começa em casa. E, para que esse desenvolvimento não seja prejudicado, é preciso que os familiares nos deem estrutura e apoio, pois, fora desse ambiente, a realidade já é suficientemente cruel conosco. Uma grande parcela da população transgênera desenvolve depressão e outras psicopatologias, chegando ao suicídio. Posso afirmar que um dos maiores causadores desses problemas é a violência física e psicológica praticada pelos próprios familiares. Os assassinos, infelizmente, não estão apenas fora do ambiente familiar, mas também dentro.”

Miguel Marques, transexual e estudante de psicologia

Aceitação

A história da brasiliense Gabriela Almeida, 24 anos, é diferente. Ela conta que teve a sorte de ser compreendida pela mãe, que, apesar de receosa em alguns momentos, acompanhou a transição da filha com amor e paciência.

A enfermeira Rosangela, 40, criou as duas filhas sozinha. O pai nunca foi presente e, quando procurava Gabriela, era para questionar seu comportamento. “Ele disse que, se eu fosse gay, não deveria mais considerá-lo meu pai. Eu disse que não me importava, que o importante era a opinião da minha mãe, que sempre cuidou de mim”, conta a cabeleireira, que, durante adolescência, se considerava um homem homossexual.

O entendimento sobre a inquietação que sentia só chegou mais tarde para a jovem, quando, ao trabalhar em um salão de beleza, sentiu-se livre para adotar o comportamento e as roupas de lhe agradavam. Tornou-se cada vez mais feminina, até que uma amiga trans a convidou a frequentar o grupo de apoio do Hospital Universitário de Brasília. Lá, foi chamada pela primeira vez de Gabriela. “Eu percebi que ficava ansiosa para que chegasse logo a terça-feira (dia dos encontros em grupo) para eu ser novamente a Gabriela”, recorda. O passo seguinte foi iniciar o tratamento hormonal, o que fez em segredo, por temer a reação da mãe.

Processo

Quando Rosangela descobriu os comprimidos, ligou para a filha e disse que elas precisavam “ter uma conversa”. “Nessa hora, fiquei com medo, achando que ia ser expulsa de casa”, lembra a cabeleireira. O maior receio da mãe, entretanto, era com a saúde da filha: “Eu achei que ela estava se automedicando, como algumas amigas delas faziam”. Gabi percebeu ali que não só poderia continuar em casa como tinha uma mãe disposta a respeitar e tentar entender seu processo.

A adaptação, porém, era necessária para ambas. “No início, quando ela errava o pronome, me chamava de ele, eu ficava brava. Mas tive a sorte de entender que, pra ela, também era um processo, que ela precisava de tempo“, explica. A dedicação mútua deu resultados. Gabi terminou a transição em 2012. No ano seguinte, no Dia Internacional da Mulher, recebeu um presente da mãe, que disse ter em casa as duas mulheres mais lindas do mundo, referindo-se às duas filhas. “Foi quando vi que ela realmente me aceitava, que me via como mulher.”

Hoje, Gabriela tem plena noção da sorte que teve. “Ouvindo outras histórias, a gente vê o tanto que é privilegiada. Se não fosse ela, eu não estaria aqui, com meu trabalho, independente, na minha casa. Ela me preparou para isso. Ela foi tudo.” Rosangela também celebra a sorte. “Acho que pra mim não foi tão difícil porque eu sempre soube. Mesmo inconscientemente, sempre soube que a Gabi era a Gabi.”

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A informação adequada tem o poder de quebrar falsos paradigmas e modelos sociais que não fazem mais sentido nos dias em que vivemos. Viva as mulheres trans e todas as formas de amar!!

Domingo, 13 de Setembro de 2020 Domingo, 13 de Setembro de 2020 às 18:19