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O que faz uma mulher trans ser trans de verdade? Como podemos desenvolver a percepção adequada da condição de ser uma mulher trans.

O que faz uma mulher trans ser “trans de verdade”?

“Eu simplesmente tenho dificuldade de enxergar qualquer pessoa como trans ‘de verdade’.”, confidenciou-me uma amiga noutro dia, o que me fez pensar: O que torna alguém trans “de verdade”? Vamos tentar destrinchar isso daí.

Primeiro, precisamos esclarecer a diferença entre sexo e gênero.

Nós nascemos com um sexo, masculino ou feminino (leia sobre pessoas intersexo na nota mais à frente). A sociedade nos designa determinados papéis sociais baseados em nosso sexo que se espera que sejam seguidos. Nós não temos sempre de nos conformar com esses papéis, mas frequentemente ficamos sob muita pressão para fazê-lo. Espera-se que tomemos nosso lugar em algum lugar na caixa rosa ou na caixa azul. Esses papéis de gênero baseados no sexo são uma construção social e variam de cultura para cultura.

Construção social

Um mecanismo, fenômeno ou categoria social criada e desenvolvida pela sociedade; uma percepção de um indivíduo, de um grupo ou de uma ideia que é ‘construída’ por meio de práticas culturais ou sociais

Construções sociais são explicadas brilhantemente aqui (texto em inglês, ainda sem tradução), e se você deseja um rápido curso para refrescar sua memória, esse é o lugar pra fazê-lo.

Apesar de alguns comportamentos serem considerados mais tipicamente femininos e outros mais tipicamente masculinos, todas e todos nós temos uma mistura de traços masculinos e femininos, e, vez ou outra, a maioria de nós se desagrada com a ideia de que deveríamos simplesmente consentir (e nos limitar ao nosso sexo). É duro para mulheres que se espere que elas estejam “gostosas” o tempo todo. É duro para homens que se espere que eles nunca demonstrem vulnerabilidade

Nós somos essa mistura de masculino e de feminino, e nunca duas pessoas terão exatamente a mesma mistura de características. Pouquíssimas pessoas de nós são inteiramente masculinas ou femininas em comportamento. Isso é o que forma a base de nossa PERSONALIDADE.

Pode ser que um dia eu decida usar uma saia longa, franjas e batom; no outro dia, sem nenhum motivo especial, eu posso usar moletons de ginástica, zero maquiagem e não me importar nem pra pentear o meu cabelo. Em um dia eu posso me sentir gentil e cuidadosa, em outro dia eu posso me sentir brava e volátil. Isso porque, emocionalmente, eu sou não-binária. E VOCÊ TAMBÉM É! TODAS E TODOS NÓS somos não-binários. Essa palavra, no contexto de gênero, é completamente sem significado. Ninguém é 100% masculino ou 100% feminino. A maioria de nós se encaixa em algum lugar no meio.

Uma mulher pode usar calças, consertar carros, fumar um cachimbo, amar outra mulher — e isso não faz dela um homem. Um homem pode chorar com facilidade, fazer coroas de flores, passar um bom tempo arrumando seu cabelo — e isso não faz dele uma mulher. “Mulher” e “homem” não são sentimentos ou estereótipos, são categorias biológicas. Isso não significa que se espera que todas as pessoas se pareçam com o homem e a mulher abaixo: altura, cor de pele, idade — tudo isso tem efeitos em nós.

Mulheres como um grupo são discriminadas por conta de nossa biologia feminina; não porque temos cabelos longos, usamos sutiã e batom e rimos histericamente. Nós somos as fêmeas da espécie: nós gestamos a juventude, nós parimos a juventude — com todos os riscos que isso representa — , nós alimentamos a juventude e geralmente criamos e educamos a juventude. Geralmente temos corpos menores que os homens, além de termos menos força bruta. Esses fatos, histórica e culturalmente, têm possibilitado que os homens tivesse poder sobre nós. Mulheres são valorizadas por seus corpos e exploradas por seus corpos. Mulheres têm mais chances de serem prostituídas ou estupradas; mais chances de serem vítimas de abuso físico por parte daqueles próximos a ela. Mulheres fazem a maior parte do trabalho no planeta e são menos pagas por isso, seja no topo ou no fim da escala de pagamento. Não é possível se identificar pra dentro ou pra fora dessas realidades. Elas não precisam acontecer com todas as mulheres para serem problemas de mulheres. Mas elas acontecem com mulheres porque são mulheres.

Nossa biologia é o que nos une; o que nos torna mulheres. Nós todas tivemos uma mãe e ela era mulher.

Enquanto que “homem” e “mulher”, “menina” e “menino” são definições baseadas em nossas capacidades reprodutivas, vou falar o óbvio e acrescentar que alguns seres humanos escolhem não procriar, e outros não têm a capacidade de procriar. Algumas pessoas nascem estéreis. Algumas mulheres talvez nunca menstruem; alguns homens talvez nunca produzam esperma. Essas são condições físicas que ocorrem quando o desenvolvimento biológico dá errado e elas não têm nada a ver com o funcionamento do cérebro ou com a transgeneridade.

Uma pequena proporção de pessoas nasce intersexo. Assim como uma pessoa nascer sem uma perna não significa que seres humanos não sejam bípedes, a existência de pessoas intersexo não significa que a humanidade não seja biologicamente binária.

A condição intersexo às vezes é lançada na sopa de letrinhas que costumava ser LGB, e algumas pessoas confundem essa condição com a transgeneridade. Ser intersexo é uma condição física e genética e não tem nada a ver com a condição psicológica da transgeneridade. Uma pessoa intersexo podem muito bem ser “considerada” homem ou mulher ao nascer, mas o resto de nós tem nosso sexo observado, não “designado”, frequentemente enquanto ainda estamos no ventre de nossas mães. A ideia de que somos “designadas a um sexo no nascimento” e que nossa “identidade de gênero” é que nos torna homens ou mulheres é profundamente insultante para muitas lésbicas e gays que sentem que essa ideia os invisibiliza e invisibiliza a ideia de atração pelo mesmo sexo.

“A que você acha que eu, como homem gay, me atraio? A “almas” masculinas? Lésbicas se atraem a uma “essência feminina” metafísica?… você sabe a diferença entre uma corça e um veado, né? Ou entre um touro e uma vaca? Um carneiro e uma ovelha? Por que parar com as pessoas, com homens e mulheres?” (tweet de @throwaway_gay)

Muitas pessoas intersexo também estão infelizes por sua condição estar sendo confundida com a transgeneridade. A Sociedade Intersexo da América do Norte afirma:

Pessoas que têm condições intersexo têm uma anatomia que não é considerada tipicamente masculina ou feminina. A maioria das pessoas com condições intersexo chamam a atenção médica porque médicos ou o pai e a mãe notam algo incomum em seus corpos. Em contraste, pessoas transgênero têm uma experiência interna de identidade de gênero que é diferente da maioria das pessoas… esses dois grupos não deveriam e não podem ser pensados como um só.

Há muita informação errada circulando na internet sobre intersexos, a maioria escrita por pessoas que gostariam de conectar essa condição à transgeneridade para dar a ela alguma tipo de base biológica perceptível. Vale a pena ler o site da Sociedade Intersexo da América do Norte se você tem interesse em aprender mais por meio de uma fonte confiável.

“Algumas pessoas nasceram no corpo errado!”

Pergunte-se como é possível “nascer no corpo errado”? Você nasce no seu próprio corpo. O cérebro é um órgão, é parte do seu corpo. Como pode ser cérebro estar errado, mas o resto do seu corpo estar certo? Existe isso de ser “trans de verdade”? E se existe, como o definimos?

A maioria dos dicionários parece razoavelmente consistente em sua definição de transgênero.

Transgênero

. indicativo ou relativo a uma pessoa cujo senso de identidade pessoal e de gênero não corresponde a seu sexo de nascimento.

Algumas pessoas ficam tão desconfortáveis ao serem percebidas como seu sexo de nascimento — e ao esperarem que elas cedam aos estereótipos que acompanham seus corpos sexuados — que elas sentem que seu desconforto só pode ser resolvido tentando mudar a forma como elas são percebidas. Um homem que deseja ser percebido como uma mulher ou uma mulher que quer ser percebida como homem é “transgênero”. Ser transgênero geralmente envolve conformar-se aos estereótipos do sexo oposto — homens que se identificam como trans (sigla em inglês TIMs) usam batom e deixam seu cabelo crescer e frequentemente passam por cirurgias que os deem a aparência de ter seios. Mulheres que se identificam como trans (TIFs) cortam seus cabelos e apertam seus seios sob as roupas ou os removem. A maioria diz que esse é o único jeito de se tornarem seus ‘eus’ autênticos. Algumas pessoas alegam inclusive que isso desafia estereótipos de gênero.

Alex Bertie, venerada por uma geração de adolescentes meninas que se identificam como trans, toma testosterona em busca de desenvolver barba e já fez dupla mastectomia; mas, ao mesmo tempo, não vê a ironia em tirar selfies usando uma blusa que diz “papéis de gênero estão mortos”.

Se “autêntico” quer dizer “não falso”, “não copiado”, genuíno, original, não modificado — o que há de autêntico em se medicar e remover partes saudáveis de seu corpo de forma a criar uma ilusão baseada em estereótipos? É sequer possível ser trans sem recorrer a estereótipos?

“No meu caso, tornar-se ‘eu mesmo’ envolveu uma mistura de médicos, pílulas e cirurgias”, escreve Juno Dawson, paradoxalmente.

O que você precisa fazer pra ser um trans “de verdade” legalmente ?

Para obter um Certificado de Reconhecimento de Gênero do governo do Reino Unido, você ainda precisa ter o diagnóstico de disforia de gênero e provar que você “vive no gênero adquirido há pelo menos dois anos”. Para provar isso você vai precisar de um passaporte, carteira de habilitação, salários e contas.

Mas para mudar de sexo no seu passaporte, no Reino Unido, você só precisa de uma carta do seu médico dizendo que sua decisão “é provavelmente permanente”.

O que nos leva aonde estamos agora. Se você diz que é uma mulher, você é uma mulher, e qualquer pessoa que tentar dizer o contrário é transfóbico e cheio de ódio.

Você não tem que amputar seu pênis, adquirir seios artificiais, tomar hormônios ou mesmo arrasar com batons agora, nem mesmo trabalhar na loja de caridade local “como uma mulher” por dois anos. Você só tem que convencer seu médico de que você realmente, realmente “se sente como uma mulher” e fazê-lo colocar isso numa carta.

Como um homem pode saber como uma mulher se sente? Não há uma única experiência de mulheridade. Não podemos saber nem como as pessoas que amamos se sentem. Você não pode saber como eu me sinto, e seu vizinho do lado não pode saber como você se sente. Não é possível que um homem alegue “se sentir como uma mulher” ao menos que ele invoque estereótipos.

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A informação adequada tem o poder de quebrar falsos paradigmas e modelos sociais que não fazem mais sentido nos dias em que vivemos. Viva as mulheres trans e todas as formas de amar!!

Sábado, 25 de Julho de 2020 Domingo, 26 de Julho de 2020 às 13:51